Os palcos invisíveis do cotidiano: o que você faz quando ninguém está olhando?
- erika rox
- 6 de fev.
- 6 min de leitura
A pesquisa de comportamento com o olhar do flâneur e a escuta do antropólogo.
A vida cotidiana está cheia de palcos invisíveis.
Cheguei a essa percepção em uma noite de sábado qualquer, enquanto observava as cenas que se desenrolavam do outro lado da rua e as anotava em minhas páginas diárias.
(Registro de nota em 13/09/2025): Da sacada da minha casa, é possível notar uma família reunida em torno da mesa, um homem improvisando um salão doméstico para cortar o cabelo de uma mulher e, mais acima, uma sombra que se embala lentamente em uma cadeira suspensa. Outras sacadas permanecem incompreensíveis, encobertas por vidros embaçados, cortinas ou pela escuridão. Do lado de cá, esta observadora se percebe deitada numa rede, numa noite primaveril, com uma taça de vinho numa mão e um kindle na outra.
Esse pequeno exercício de people watching me fez refletir sobre como o protagonismo de alguém pode acontecer em qualquer lugar, ainda que em incógnito. Artistas e designers tendem a ser observadores entusiastas e talvez por isso encontrem nas cenas banais do dia a dia uma fonte inesgotável de inspiração e insight.
Mesmo sem ensaio, intenção ou nomeação, ações corriqueiras numa noite de sábado podem revelar desejos, costumes, experiências e, acima de tudo, beleza. Muito podemos aprender com esse protagonismo silencioso.
Para entender melhor como treinar esse olhar, vale invocar alguns personagens históricos que fizeram e fazem da observação sua principal ferramenta de compreensão do mundo. Vamos começar pela figura fictícia do flâneur.
O espectador apaixonado
Na literatura, o flâneur (cujo feminino é a flâneuse) é descrito por Baudelaire em “O Pintor da Vida Moderna” (1863) como um “espectador apaixonado” da vida urbana contemporânea. Segundo o autor:
“Sua paixão e sua profissão consistem em esposar a multidão. Para o perfeito flâneur, para o observador apaixonado, constitui um grande prazer fixar domicílio no número, no inconstante, no movimento, no fugidio e no infinito… O observador é um príncipe que usufrui, em toda parte, de sua condição de incógnito.”
No ensaio, Baudelaire retrata o artista Constantin Guys como um observador atento, capaz de perceber sutis transformações nos códigos de vestimenta e comportamento da sociedade moderna.
Essa sensibilidade o teria transformado de ilustrador de guerra em cronista da beleza cotidiana.

Walter Benjamin usa a metáfora de “passear com tartarugas” para ironizar a lentidão deliberada desse expectador que caminha devagar, saboreando o tempo e a cidade, em contraste com a pressa da modernidade.
Num contexto de século XIX, esse olhar pausado perceberia nas ruas, vitrines e nas modas de rua, os principais sinais da aceleração provocada pela Revolução Industrial.

Hoje, esse olhar ganha novas camadas. A cidade não é mais marcada por detalhes sutis, mas virou palco para múltiplas representações culturais. No artigo “The Art of Being a Flâneur” (A Arte de Ser um Errante) para o The New York Times, Stephanie Rosenbloom associa o flâneur ao conceito de wanderlust, o desejo de vagar por aí.
Nesse exercício, se faz presente uma necessidade de ver novos mundos e, mesmo que já não seja mais uma barreira completamente inacessível, não é mais preciso atravessar oceanos para isso.
Em “Wanderlust: A History of Walking” (Desejo de viajar: Uma História de Caminhada), Rebecca Solnit descreve o ato de caminhar como uma forma de pensamento em movimento: corpo e mente observando o mundo em conjunto.
O flâneur passeia pela cidade como quem lê uma narrativa viva e o wanderer percorre paisagens para compreender o espaço e a si mesmo. Ambos desaceleram o tempo, fluem para fora de suas bolhas e abrem espaço para um olhar sensível das sociedades.
O olhar que observa e o olhar que é observado
Aplicado ao design e à pesquisa de comportamento, esse olhar convida à compreensão das nuances humanas e, possivelmente, à empatia. Significa ir além da solução de problemas e buscar experiências mais ricas e humanizadas.
No design centrado no usuário, as pessoas são protagonistas.
Observar o cotidiano — o people watching — é uma prática qualitativa poderosa para captar padrões sutis, narrativas silenciosas e atmosferas que dificilmente seriam reveladas por meio de perguntas diretas ou métricas quantitativas. Não à toa, tantos exercícios de ilustração, escrita e fotografia partem da observação do cotidiano, como uma ida ao museu ou um passeio pelo centro da cidade.
No ensino de design, é comum a introdução de disciplinas ligadas à antropologia, como pesquisa de campo, etnografia e netnografia.
Ellen Lupton exemplifica esse ponto em “O Design como Storytelling”, quando cita o exercício de observação de Emily Joyton ao ilustrar seus colegas durante uma palestra:
“Para um designer que esteja criando um produto educacional, seria extremamente útil passar algum tempo observando pessoas que estão aprendendo e ensinando.”

Se o flâneur observa de longe, o antropólogo mergulha.
Em entrevista ao Correio Braziliense, o antropólogo do luxo Michel Alcoforado comentou que muitos dos entrevistados para seu livro “Coisa de Rico” não se reconheciam como parte da elite retratada.
Essa reação mostra a dualidade do olhar e ser olhado (look at and be-lookedness), quando a consciência de que estamos sendo observados nos faz mudar a forma de agir, tornando-nos mais performáticos e cuidadosos. Para o design, essa reflexão é essencial: intenção e reconhecimento do poder do olhar são tão importantes quanto a observação em si.
O olhar que projeta
Certa vez, propus o arquétipo do Flâneur Informacional como uma carta de habilidade para designers. Sua competência pode ser resumida assim:

“Ao adotar uma postura curiosa, criativa e crítica, designers podem ampliar seu foco, deixar de olhar apenas para a resolução de problemas e se voltar para a criação de experiências ricas. Como o flâneur informacional, os designers se apoiam em perspectivas centradas no humano para compreender e abordar as dimensões cognitivas, perceptivas e afetivas do design.”
Observar é um ato de interesse e de empatia, mas também de responsabilidade. Mais do que coletar dados, trata-se de reconhecer a alteridade, entender como diferentes grupos vivem e interagem, e instigar projetos e experiências que respeitem e ampliem essa diversidade.
Aliás, não se projeta uma experiência, mas para uma experiência, pois esta pertence ao usuário, não a designers.
Reconhecer os limites da empatia é essencial para evitar projetar o próprio olhar sobre o outro.
Ser um bom designer é, antes de tudo, saber transitar entre diferentes bolhas. A ideia das cartas de habilidade pode servir como guia para essa fluidez, permitindo alternar entre arquétipos conforme as demandas de cada etapa do processo de design. Nesse caso:
O flâneur serve para momentos de distanciamento, quando o olhar curioso e atento ajuda a perceber padrões sutis, ideal para pesquisas de comportamento, observação de campo e testes de usabilidade.
O antropólogo, com seu olhar mais questionador, entra em cena nas etapas de empatia e co-criação: criação de personas, jornadas, hipóteses e protótipos.
O flâneur serve para momentos de distanciamento, quando o olhar curioso e atento ajuda a perceber padrões sutis, ideal para pesquisas de comportamento, observação de campo e testes de usabilidade.
O antropólogo, com seu olhar mais questionador, entra em cena nas etapas de empatia e co-criação: criação de personas, jornadas, hipóteses e protótipos.
Observar é método. É prática. É vício produtivo.
E nos lembra que a vida acontece tanto no palco iluminado do protagonismo quanto nos bastidores quase invisíveis do cotidiano.
Para refletir:
O que cada um de nós faz quando acredita que ninguém está olhando?
E como esse comportamento invisível pode inspirar a forma como projetamos experiências para os outros?
Esse texto também foi publicado no Medium pelo UXCollective Brasil e possui alguns links afiliados.

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